“Don’t ever write unless it hurts like a hot turd coming out”

[] Conhece “A Carta a Um Jovem Poeta”? [sic] É um diálogo entre Rilke e um jovem poeta que lhe tinha entregue uns poemas. O Rilke simpaticamente disse que tinha gostado de alguns, a que o jovem terá aduzido esperançado: “Acha então que devo continuar a escrever?” Tendo Rilke respondido de pronto: “Ó homem, se pode parar de escrever, aproveite.” Eu acho até que é um dever cívico. Defendo a tese de que a poesia devia pagar imposto. Mesmo cair sob a alçada do Código Penal. Isso para evitar que, entre outras coisas, eu tenha de ler aqueles 400 livros [aponta para um molho de livros de um concurso de que é jurado]. Todos com “alma” a rimar com “calma” e “água” a combinar com “mágoa” e coisas do género. Poupava-se papel, árvores e muitas coisas.

χάος

A Priscila Rêgo escreveu sobre o quão importante é para os governantes de países ultra-endividados sinalizarem aos seus credores que que farão “o que for preciso” (nas palavras de Passos Coelho) para atingir índices macroeconómicos decentes. O reverso da moeda é que, ao dizer coisas como essa e tomar sucessivas medidas contraccionistas sem que haja sinais de recuperação económica, arriscam-se a sofrer consequências que não previram: desde uma queda maior do que a esperada do investimento privado até uma corrida aos bancos, para recolher os depósitos enquanto há tempo. Daí ao colapso é um passo.

Um problema

O problema detectado por Kenneth Rogoff no mercado alimentar está em como tudo revolve em torno do prazer e do dinheiro: a indústria que produz o que comemos procura os melhores sabores; mas nem sempre os nutrientes são os melhores, pelo que acabamos por engrossar as filas dos hospitais, parte deles privada; a indústria farmacêutica também ganha com isto, podendo receitar-nos algo que tratará do que apenas obtivemos porque ingerimos porcarias; e claro, pelo meio há os marketeers, que vivem de abrilhantar a realidade.

O problema detectado por David Owen noutros mercados, como o das lâmpadas e o dos aviões, é que quanto mais eficiência é conseguida, e quão mais sustentáveis são os produtos que nos estão disponíveis, também tendencialmente são mais baratos. Logo, a procura aumenta e consequentemente a oferta ajusta-se. Resultado? A maior sustentabilidade inicial resulta em menor sustentabilidade futura. Com muito marketing pelo meio, trata-se de criar necessidades ao consumidor.

Já sabemos que se mais umas dezenas de países consumissem como os Estados Unidos e a China o mundo não seria sustentável nem a curto prazo. E no entanto continuamos a permitir que este “capitalismo coronário” (expressão de Rogoff) nos encaminhe para um beco. Se haverá saída ou não é ainda difícil saber, mas que as necessidades dos consumidores terão de ser reajustadas parece inevitável.