Este não é, dos relatos de sobreviventes do Holocausto, o mais completo. Não é, também, o do prisioneiro que durante mais tempo esteve internado no Inferno nazi. Mas isso não impede Se Isto é um Homem de ser o melhor do seu género. Porquê? Pela quase total ausência de juízos valorativos nas descrições dos 13 meses em que Primo Levi respirou Auschwitz.
Por que raio são os juízos de valor prejudiciais a este tipo de obras? Porque não são necessários: as descrições secas e incisivas de Levi são mais que suficientes para causar sensações de impotência ou vontade de chorar ao leitor. Desde logo quando, nas primeiras páginas, é testemunhada a brutalidade com que os funcionários nazis extirparam a personalidade aos prisioneiros: cortando-lhes o cabelo aos molhos, irregularmente, apossando-se dos seus bens, vestindo-os uniforme e pobremente, tatuando a sua nova identidade («o meu nome é 174517») para sempre no antebraço, subalimentando-os, fazendo-os desempenhar tarefas extenuantes e em condições climatéricas extremas.
Se Isto é um Homem não tem o homem nazi como objecto de estudo, mas sim o – outrora – homem escravo. Sim, esse, que é esvaziado de identidade e reeducado à pancada, que perde «o instinto da limpeza», que sofre «da fome regulamentar», que aprende a viver sem regras morais de qualquer tipo: «Come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho» é o lema dos campos de concentração. Todos roubam, todos invejam, todos desconfiam; poucos se agrupam e muitos menos sobrevivem. Para sobreviver é preciso «negar o nosso consentimento», ou seja, fazer ressuscitar a personalidade mil vezes pisada pelas botas nazis.
Essa espécie de homem facilmente enlouquece, ou então perde o medo e torna-se selvagem. Torna-se, desde cedo, conservadora: sabe que «quando se muda é para pior», que a sobrevivência é tanto mais difícil quanto menos esquemas irregulares se inventar. Sabe que «a morte começa pelos sapatos», perdão, socas. Perdão, pelas chagas que todos os pés, inevitavelmente, desenvolvem. Sabe que do campo de concentração «só se sai pela chaminé». E sabe, em suma, que ali a mesma palavra significa «nunca» e «amanhã de manhã».
Esse ser terminal, moldado pela propaganda e pela vergasta nazis, aprende a não desperdiçar as migalhas do seu único pão diário e a rapar até à última gota o miserável tacho medieval de onde bebe a sopa do dia. Convive com a morte e aprende a ficar indiferente a ela. Com o tempo, perde até o ódio instintivo para com o inimigo nazi e torna-se indiferente à sua submissão a ele. Mais significativamente, encontra um modo de interiorizar a mistura da brutalidade das punições com a ausência de raiva manifestada nas mesmas: «Os alemães fazem estas coisas com grande seriedade e diligência».
Numa das suas primeiras páginas, este livro (infelizmente) pobremente traduzido mas nem por isso dispensável contém a seguinte exortação de Levi: «Meditai que isto aconteceu. / Recomendo-vos estas palavras, / esculpi-as no vosso coração / estando em casa, andando pela rua, / ao deitar-vos e ao levantar-vos; / repeti-as aos vossos filhos. / Ou então que desmorone a vossa casa, / que a doença vos entreve, / que os vossos filhos vos virem a cara.»
[Este texto foi feito para o Rascunho, mas não lá foi publicado porque já lá um texto sobre o livro]