Um homem

Oriana Fallaci publicou Un Uomo em 1979, o que significa que o terá escrito entre 1977 e 1978, ainda era fresca a memória da morte de Alekos Panagulis. Mais importante, ainda eram frescas as ameaças de morte dos que a queriam impedir de investigar o modo como a política grega o fez em farrapos para no final se desfazer deles. O livro não seria tão vibrante e intenso se não tivesse sido escrito a quente, com amor e raiva à mistura. Só com esses extremos poderia ser retratado um herói bipolar que, apesar da inconstância, foi absolutamente fiel a si mesmo em algo fundamental: na luta contra o autoritarismo dos pais do povo – uns hoje, outros amanhã.

Não se vergou no essencial apesar dos tormentos e das sevícias. Mas acabou só, como começou, cercado de gente sem força para exigir a verdade e a ética. Por isso se queixou: “Vós, túmulos ambulantes / insultos viventes da vida / assassinos do vosso pensamento / fantoches de forma humana / Vós que invejais os animais / que ofendeis a ideia do criado / que procurais refúgio na ignorância / que aceitais como guia o medo / Vós que esquecestes o passado / que vedes o presente com olhos embaciados /que não tendes interesse pelo futuro / que apenas respirais para morrer / Vós que tendes mãos apenas para aplaudir / e que amanhã aplaudirais / com mais força que todos como sempre / como ontem e como hoje / Sabei então vós / desculpas vivas de toda a tirania / que odeio tanto os tiranos / como sinto nojo de vós / E dos sacanas dos vossos automóveis”.

Troika ou Argentina

Fossem as regras comunitárias outras e a solução para a tragédia grega talvez pudesse ser mais humana. Com federalismo e eurobonds, a união europeia mereceria mais do que nunca o nome. Não havendo união fiscal, resta-me testar o meu wishful thinking em joguinhos muito informativos como este. Fiquei a saber que um reajustamento do empréstimo, com prazos mais alargados, ou se dá sob as condições restritivas dos emprestadores ou não se dá simplesmente; a minha hipótese de que esse empréstimo servisse para investimento estrutural está fora de questão, porque os países emprestadores também têm eleitorados a quem agradar. Chegado o game over, a minha ideia de uma saída temporária da Grécia da moeda única (o jogo fala apenas de saída, não coloca a hipótese de que ela seja temporária e acertada com os parceiros europeus) e default parcial, ou seja, don’t cry for me Argentina, também tem pouco de realista: a Grécia teria na mesma de desvalorizar brutalmente os salários e, com apenas o turismo e pouco mais para a sustentar, não conseguiria tornar-se competitiva por artes mágicas e depois voltar ao euro. Essa hipótese da saída temporária da moeda única, que me chegou através de Kenneth Rogoff, parece por isso pouco credível. Dentro deste sistema europeu parece haver então duas alternativas: ou um reajustamento à bruta, à la troika, ou a saída do euro, a consequente desvalorização salarial relativa com a nova moeda e maior competitividade nas exportações, que se tornariam o motor da recuperação. Contras? Adeus viagens pela Europa para a classe média grega.

A origem da tragédia

A tragédia grega não é feita só de amor, azar e morte. O que a distingue do drama social é concentrar-se na psique do herói. A boa tragédia descreve pormenorizadamente a assimilação psicológica dos infortúnios de quem, até há pouco, nadava num mar de rosas.

Este artigo tem a vantagem de conter duas tragédias numa só. Um casal grego que ganhava 43 mil euros anuais governa-se agora com cerca de metade, e isto temporariamente porque o marido está prestes a perder o subsídio de desemprego. Depois de terem comprado casa e pago a educação superior dos dois filhos, o pouco que sobrou começa a desaparecer.

Como os filhos, para já empregados, receberam uma simpática herança de uma familiar, os pais dizem que está a chegar a hora de receberem dinheiro deles. Um dos filhos responde algo como isto: “se as coisas piorarem, cá estaremos para ajudar”.

A gratidão e a solidariedade são bonitas, mas talvez nem sempre sejam justas. Sendo a Grécia um caso peculiar de patronagem e sanguessuguismo político, uma quebra assim abrupta das esperanças dos cidadãos é revoltante. Mas devia ser particularmente revoltante que o discurso político tenha omitido, nas últimas décadas, a fragilidade estrutural em que a economia assentava. A culpa não foi só política, mas o exemplo vem de cima.

Os pais-43-mil-euros que estão hoje dispostos a tirar mais um quanto aos filhos são os mesmos cujos direitos adquiridos impõem agora uma readaptação brutal à nova geração: salários mínimo e médio inferiores, reforma mais magra e tardia, mercado laboral liberalizado e com menos direitos para os novos trabalhadores. Esta é a tragédia dos pais que, sem o saber, provocaram a avalanche, mas também  dos filhos que dela terão de se desenterrar.

Foster Wallace faria 50 anos hoje

Jonathan Franzen sobre DFW:

He was lovable the way a child is lovable, and he was capable of returning love with a childlike purity. If love is nevertheless excluded from his work, it’s because he never quite felt that he deserved to receive it. He was a lifelong prisoner on the island of himself.

[...] What he’d seen of his id while trying to escape his island prison by way of drugs and alcohol, only to find himself even more imprisoned by addiction, seems never to have ceased to be corrosive of his belief in his lovability. Even after he got clean, even decades after his late-adolescent suicide attempt, even after his slow and heroic construction of a life for himself, he felt undeserving. And this feeling was intertwined, ultimately to the point of indistinguishability, with the thought of suicide, which was the one sure way out of his imprisonment; surer than addiction, surer than fiction, and surer, finally, than love.

[...] To deserve the death sentence he’d passed on himself, the execution of the sentence had to be deeply injurious to someone. To prove once and for all that he truly didn’t deserve to be loved, it was necessary to betray as hideously as possible those who loved him best, by killing himself at home and making them firsthand witnesses to his act. And the same was true of suicide as a career move, which was the kind of adulation-craving calculation that he loathed in himself.

[...] Fiction was his way off the island, and as long as it was working for him—as long as he’d been able to pour his love and passion into preparing his lonely dispatches, and as long as these dispatches were coming as urgent and fresh and honest news to the mainland—he’d achieved a measure of happiness and hope for himself. When his hope for fiction died, after years of struggle with the new novel, there was no other way out but death. If boredom is the soil in which the seeds of addiction sprout, and if the phenomenology and the teleology of suicidality are the same as those of addiction, it seems fair to say that David died of boredom.

O bom aluno

Passos Coelho não quis assinar a carta dos 12 primeiros-ministros, que noutras circunstâncias seria a sua sinfonia preferida: o documento (que conta com a rúbrica dos nossos vizinhos sulistas e latinos que também têm a corda no pescoço) pede mais apoios para a pequena iniciativa privada, menos regulação e mais tempo para os países pouco pujantes possam encarreirar e crescer sustentadamente. Mas o fito pátrio é outro: o governo quer que Portugal seja visto pela professora alemã como o “bom aluno” empenhado. Não interessa se o aluno vai aprender o abêcê só na quarta classe, o importante é causar piedade. Também não importa que esta seja apenas uma professora temporária, a que se seguirão outros mais ou menos escrupulosos, com ideias – estas ou outras – mais ou menos fixas.