destruição criativa

Na cama não se fala de filosofia

Fevereiro 8, 2010 · 2 Comentários

«[...] Ela disse, te amo, vamos viver juntos.
Perguntei, não está tão bom assim? Cada um no seu canto, nos encontramos para ir ao cinema, passear no Jardim Botânico, comer salada com salmão, ler poesia um para o outro, ver filmes, foder. Acordar todo dia, todo dia, todo dia juntos na mesma cama é mortal.
Ela respondeu que Nietzsche disse que a mesma palavra amor significa duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. Para a mulher, amor exprime renúncia, dádiva. Já o homem quer possuir a mulher, tomá-la, a fim de se enriquecer e reforçar seu poder de existir.
Respondi que Nietzsche era um maluco.
Mas aquela conversa foi o início do fim.
Na cama não se fala de filosofia.»

Rubem Fonseca, «Ela», em Ela e Outras Mulheres (2006, ed. Campo das Letras)

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O mundo conspira contra mim, o detentor da verdade (2)

Fevereiro 8, 2010 · Deixe um Comentário

E não é que, nem uma meia dúzia de meses depois de não terem visto a força incandescente do programa de verdade do PSD, os portugueses também não querem ver a clareza do estado de coisas vergonhoso a que o PS de Sócrates conduziu o país? Dizem que está tudo doido, que os portugueses são uns imbecis que só não vêem porque não querem e seguem as suas vidinhas, bovinizados e metidos nas suas conchas. Dizem que correm o risco de vir a sentir vergonha de serem portugueses, coisa que volta e meia vão dizendo só para que os afaguemos e lhes digamos que não podemos viver sem eles. «Eles» são opinion-makers. Exigem manifestações, gritam por que Cavaco faça a Sócrates o que Sampaio fez – com 1% dos motivos para tal – a Santana. Consideram a notícia do Sol a estocada final num Governo já frágil; vêem a verdade onde quer que olhem – digam o que disserem os intervenientes do caso, porque eles já sabem o que concluir.

Mas não, não está aqui em causa a verdade. Essa só a saberemos daqui a uns anos, depois de um processo judicial que se arrastará até que Sócrates e companhia já nada tenham a perder na vida política. O que está em jogo é a legitimidade, ou seja, um julgamento popular sobre se Sócrates e compinchas ainda merecem o poder que lhes foi investido há meses. Para já, apesar do ruído, parece que sim; veremos a que levam os desenvolvimentos do caso. De qualquer forma, nesse julgamento dos eleitores sobre a legitimidade do Governo pesa – e muito – a percepção que tiverem sobre as alternativas: desde logo sobre se o regime, como existe, merece manter-se ligado à máquina; e, sendo a resposta positiva, se há um ou mais partidos que mereçam – mais do que este Governo – ascender ao poder. Corrupto ou não, censor ou não, Sócrates parece continuar a merecer o apoio tácito do eleitorado.

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O mundo conspira contra mim, o detentor da verdade

Fevereiro 8, 2010 · 2 Comentários

Não sei até que ponto isto será verdade – sobretudo porque a Ana Gomes ainda não se pronunciou sobre o assunto -, mas consta que a intelligentsia liberal americana anda aturdida com a possibilidade de o seu magnífico plano de saúde ir pelo esgoto. E assim é a ponto de ter defendido o assento de Ted Kennedy com uma campanha medíocre (eu sei que já é a segunda vez que aqui deixo este link, mas não me lixem: o que é bom deve ser comido, vomitado e comido de novo) e, por isso, ver agora os trogloditas republicanos perto de grunhir o «não» fatal.

Tão espantados estão que voltam a colocar-se a pergunta do milhão de dólares: porque é que são, tantas vezes, as pessoas que mais seriam beneficiadas por uma política que mais a rejeitam? O Texas, esse enxame de bushinhos e bushinhas, é precisamente o Estado que mais gente necessitada de premiums tem e, ao mesmo tempo, onde o plano bolchevique de Obama tem menos aceitação. O que pensam os democratas disto? Que, mais uma vez, o que lhes está a faltar é um bom sistema de relações públicas, uma boa campanha de marketing, um bom dum Goebbels que faça passar a mensagem de que com saúde pública é que é.

É sintomático que, em momentos de assunção do erro como estes, os democratas-liberais se estejam a voltar precisamente para a teoria da escolha racional, mais cara aos republicanos, e deixem de parte a sua tradição crítica desse determinismo. Afinal, vêem agora, o problema não está na realidade – independentemente de maior ou menor propaganda de uma das trincheiras, que faça a balança pender para um certo lado; não são, dizem eles, os cidadãos americanos que têm tendência a rejeitar a intromissão estatal na sua escolha racional. Isso não é um problema. O problema está na propaganda dos conservadores, cuja ausência faria raiar a luz celestial do plano de saúde sobre as mentes populares.

Mas a realidade é outra – digo-vo-lo eu, após ter consultado a Ana Gomes. Não só os americanos mais pobres e tradicionalistas são tendencialmente mais desfavoráveis à medida de Obama, como também são os mais ricos (habitantes dos principais centros populacionais, sobretudo a Leste, que já têm seguro de saúde) que mais a defendem. A teoria da escolha racional parece ter pouco a ver com esta realidade e não há marketing que por si só funcione se não tiver em conta que quem mais precisa de ser convencido é quem, teoricamente, deveria mais facilmente compreender que só tem a ganhar.

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Fevereiro 6, 2010 · Deixe um Comentário

Fauxliage – All The World

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O que distingue comunismo e fascismo?

Fevereiro 5, 2010 · 2 Comentários

«The whole idea of communism is dead in North Korea, and its most recent “Constitution,” “ratified” last April, has dropped all mention of the word. The analogies to Confucianism are glib, and such parallels with it as can be drawn are intended by the regime only for the consumption of outsiders. Myers makes a persuasive case that we should instead regard the Kim Jong-il system as a phenomenon of the very extreme and pathological right. It is based on totalitarian “military first” mobilization, is maintained by slave labor, and instills an ideology of the most unapologetic racism and xenophobia. [...] North Korean women who return pregnant from China—the regime’s main ally and protector—are forced to submit to abortions. Wall posters and banners depicting all Japanese as barbarians are only equaled by the ways in which Americans are caricatured as hook-nosed monsters.»

Christopher Hitchens.

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Enquadrar o debate

Fevereiro 5, 2010 · Deixe um Comentário

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Público e privado

Fevereiro 5, 2010 · Deixe um Comentário

São de dois tipos os argumentos que tenho lido em defesa de José Sócrates: uns são legalistas, ou seja, afirmam que nenhum tipo de informação que aterre na esfera mediática deve ser publicado, a não ser por indicação de fontes oficiais identificadas (Ministério Público, inspectores policiais, Supremo Tribunal de Justiça, Procuradoria-Geral da República, etc.); os outros defendem que só são actos públicos mediatizáveis aqueles em que uma figura política esteja em contexto político (no Parlamento, no Conselho de Ministros, em acções de campanha ou em declarações à imprensa).

Suponhamos que eu vou na rua e cruzo-me com um ex-ministro de um governo PSD, que diz a um amigo ter desviado dos cofres estatais 5 milhões de euros. Ninguém ousará dizer que isto não merece ser tornado público. Como eu penso o mesmo, aproveito o momento para ligar o gravador de som do telemóvel e consigo captar um outro instante em que o ex-ministro repete que roubou 5 milhões ao Estado. Em seguida contacto um jornal que considero independente, a minha gravação é autenticada e publicada. Rebenta um escândalo e o ex-ministro não tem como se defender do óbvio.

O Daniel Oliveira, curiosamente legalista neste aspecto, diria que este tipo de prática significa que eu – ou a imprensa, que aceitou a minha gravação – me considero «proprietário dos nossos [dos cidadãos] direitos, liberdades e garantias». Em suma, ao procurar a publicação desta informação eu estaria a violar o direito do ex-ministro de conversar, em privado, do que bem lhe apetece. Mesmo que esse tema fosse um roubo do erário público, eu só poderia torná-lo público se ele tivesse sido trazido a lume em contexto político.

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Deixem lá, com o Passos Coelho isto muda completamente

Fevereiro 4, 2010 · 8 Comentários

Anda por aí uma mão-cheia de liberais-conservadores – gente com peso na formação de opiniões – que quer revolucionar o regime. Falam da herança socialista da Constituição, de um sistema de Justiça que institui o «segredo» profissional, do enorme poder de pressão das corporações (sindicatos, ordens, por aí fora). Querem um regime mais centrista, parlamentar, com listas de deputados abertas e quiçá sistema eleitoral maioritário – para que, como em Espanha, a votação nos dois principais partidos seja artificialmente inflaccionada e haja maior estabilidade sistémica. Agora que José Sócrates e companhia escorregam em tudo o que é monte de caca, os «refundadores» esperam a queda do governo e a iminência de uma crise política, que muito dificilmente não se seguiria (qual é a alternativa: um governo PS com António José Seguro à cabeça? Cavaco tomar as rédeas do poder? Este PSD e o CDS coligarem-se?). Mas a tal «nova ordem» que almejam não é coisa para um país cuja esquerda radical açambarca 20% do eleitorado e cujos partidos de direita se ficam nos 40% do bolo. O eleitorado, mais do que o sistema (que é quase rigidamente proporcional, apesar do método de cálculo), não é tendencialmente centrista; pende para a esquerda. Como em 1976.

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Se Isto é um Homem / Primo Levi

Fevereiro 2, 2010 · Deixe um Comentário

Este não é, dos relatos de sobreviventes do Holocausto, o mais completo. Não é, também, o do prisioneiro que durante mais tempo esteve internado no Inferno nazi. Mas isso não impede Se Isto é um Homem de ser o melhor do seu género. Porquê? Pela quase total ausência de juízos valorativos nas descrições dos 13 meses em que Primo Levi respirou Auschwitz.

Por que raio são os juízos de valor prejudiciais a este tipo de obras? Porque não são necessários: as descrições secas e incisivas de Levi são mais que suficientes para causar sensações de impotência ou vontade de chorar ao leitor. Desde logo quando, nas primeiras páginas, é testemunhada a brutalidade com que os funcionários nazis extirparam a personalidade aos prisioneiros: cortando-lhes o cabelo aos molhos, irregularmente, apossando-se dos seus bens, vestindo-os uniforme e pobremente, tatuando a sua nova identidade («o meu nome é 174517») para sempre no antebraço, subalimentando-os, fazendo-os desempenhar tarefas extenuantes e em condições climatéricas extremas.

Se Isto é um Homem não tem o homem nazi como objecto de estudo, mas sim o – outrora – homem escravo. Sim, esse, que é esvaziado de identidade e reeducado à pancada, que perde «o instinto da limpeza», que sofre «da fome regulamentar», que aprende a viver sem regras morais de qualquer tipo: «Come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho» é o lema dos campos de concentração. Todos roubam, todos invejam, todos desconfiam; poucos se agrupam e muitos menos sobrevivem. Para sobreviver é preciso «negar o nosso consentimento», ou seja, fazer ressuscitar a personalidade mil vezes pisada pelas botas nazis.

Essa espécie de homem facilmente enlouquece, ou então perde o medo e torna-se selvagem. Torna-se, desde cedo, conservadora: sabe que «quando se muda é para pior», que a sobrevivência é tanto mais difícil quanto menos esquemas irregulares se inventar. Sabe que «a morte começa pelos sapatos», perdão, socas. Perdão, pelas chagas que todos os pés, inevitavelmente, desenvolvem. Sabe que do campo de concentração «só se sai pela chaminé». E sabe, em suma, que ali a mesma palavra significa «nunca» e «amanhã de manhã».

Esse ser terminal, moldado pela propaganda e pela vergasta nazis, aprende a não desperdiçar as migalhas do seu único pão diário e a rapar até à última gota o miserável tacho medieval de onde bebe a sopa do dia. Convive com a morte e aprende a ficar indiferente a ela. Com o tempo, perde até o ódio instintivo para com o inimigo nazi e torna-se indiferente à sua submissão a ele. Mais significativamente, encontra um modo de interiorizar a mistura da brutalidade das punições com a ausência de raiva manifestada nas mesmas: «Os alemães fazem estas coisas com grande seriedade e diligência».

Numa das suas primeiras páginas, este livro (infelizmente) pobremente traduzido mas nem por isso dispensável contém a seguinte exortação de Levi: «Meditai que isto aconteceu. / Recomendo-vos estas palavras, / esculpi-as no vosso coração / estando em casa, andando pela rua, / ao deitar-vos e ao levantar-vos; / repeti-as aos vossos filhos. / Ou então que desmorone a vossa casa, / que a doença vos entreve, / que os vossos filhos vos virem a cara.»

[Este texto foi feito para o Rascunho, mas não lá foi publicado porque já lá um texto sobre o livro]

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Coincidências

Fevereiro 1, 2010 · 1 Comentário

Para quem ainda acreditar em coincidências, a saída de Mário Crespo do JN – ainda que não também da SIC Notícias, suponho que por não ter quota de audiências relevante – em nada tem a ver com o que aconteceu ao Jornal de Sexta da TVI, a Pedro Lomba no Diário Económico ou ao que supostamente ia acontecendo ao Sol, não fosse o dinheiro angolano. Nada terá também a ver com a suavidade com que Diário e Jornal de Notícias tratam o Governo, entrevistam os seus membros e servem de trampolim para uma facção minoritária (a de Passos Coelho) do PSD. (Excluo deste rol a saída de João Miguel Tavares do DN para o Correio da Manhã, porque o próprio afirmou que isso se deveu apenas a proposta do último; excluo também a suavização ideológica do Público, porque apesar de tudo José Manuel Fernandes continua a escrever para lá – e agora até tem mais espaço do que antes -, para além de que contrataram o Pedro Lomba; e excluo ainda o episódio de Marcelo Rebelo de Sousa, porque aparentemente deverá continuar na RTP.)

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