[Este foi originalmente para o Aparelho de Estado]
O que faz um político homossexual, como Roy Ashburn, opor-se durante 14 anos ao alargamento de direitos cívicos aos gays? O oportunismo, dirão uns: a ambição profissional até os instintos mais básicos está disposta a renegar. Legitimado por votantes conservadores, o político abdicaria assim dos seus princípios e seria um mero filtro da vontade desse seu eleitorado. Estranha visão de representatividade, esta, em que o representante deixa de parte o mais elementar da sua personalidade por ganhos nas urnas.
Estará alguém disposto a transformar a sua vida numa mentira a troco de reconhecimento público? Talvez, mas dificilmente não sem uma grande dose de auto-censura. Noutros termos, o homossexual que se mascara de machão não está apenas a brincar ao Carnaval; ele é capaz de conviver permanentemente com a mentira porque se recrimina por ser o que é. O homossexual que assim age acha-se inferior, anormal. Provavelmente foi socializado para pensar assim. Mas, no final, os genes não são recalcáveis; eles são irreprimíveis.
Ashburn tirou a máscara depois de ter sido apanhado bêbedo num bar gay. O mesmo aconteceu – lembram-se? – a Jörg Haider, o austríaco neo-fascista que faleceu num acidente de viação. O seu braço direito no partido, Stefan Petzner, era afinal também um seu amante de longa data. Banhado em lágrimas, Petzner disse que a morte de Haider foi para ele «o fim do mundo». Resultado: foi imediatamente afastado da liderança do partido.
Um conservador norte-americano não é comparável a um neo-fascista austríaco. Certo. Mas é curiosa a facilidade com que se alinha um homossexual publicamente homófobo no grupo dos oportunistas (whatever gets you through the night), sem pensar que talvez haja uma lógica inerente ao seu comportamento. Não é, ao contrário do que se pensa, absolutamente paradoxal que haja gays ultra-conservadores (este nature vs. nurture sim, é interessante).
Como escreveu Susan Sontag – em 1975 para a New York Review of Books – a propósito do livro SS Regalia, de Jack Pia, se compararmos os uniformes das SS nazis aos dos militares de qualquer outro país veremos que os primeiros eram rigorosamente proporcionais e visualmente admiráveis. Os uniformes nazis não eram meramente utilitários; eram, também, objectos estéticos. Não é, por isso, de admirar que, como escreveu Sontag, «it is among homosexuals that the eroticizing of Nazism is most visible».
Homossexuais reprimidos podem expressar-se cultivando exageradamente a virilidade. Não custa assim tanto a crer. Para a próxima não se admirem – tanto. E, entretanto, vejam lá o Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl. Tamanha busca de clímax extático ultrapassa a política; é religião; e é também erotismo.
